E um pouco de prosa e poesia:


 

As terras de Minas. Minas  dá assunto.

Minha Minas Gerais é o lugar mais lindo que existe.

Tempos da infância

 

Divino do Carangola. Lá viviam minha avó e os filhos  ainda   solteiros. Acho que seis de um total de 12, todos vivos na época.
Sentir o gosto e o cheiro da terra, as caminhadas, raios fendendo pedras. Mangueiras, horta, pés de cravo... alecrim e roseirinhas na beira do riacho que passava na porta da cozinha.

 

Lembranças dos colchões de capim seco, ou de palha de milho... ficava ruim, jogava fora, lavava a capa e enchia de novo. Camas? De vara. Móveis? Arcas enormes e bancos compridos. Um espelho quadrado pendurado na janela. Ninguém precisava mais do que isto. Casas com muitos cômodos, altas, em baixo dormiam as galinhas – haja pulgas. A roupa da casa toda feita de sacos ou morim... um tipo de tecido branco. O vestuário de chita e brim... sapatos só se calçava aos domingos...
As  compras eram feitas uma vez por ano com recursos da venda do café. Então era necessário providenciar tudo, não se esquecendo da latinha  de "pó-de arroz" muito cheiroso,  que minhas tias usavam no rosto. Quando conseguiam um cor de rosa, ficavam numa alegria que só vendo. As compras se reduziam ao querozene, sal, macarrão, roupas e calçados. O resto a terra fornecia.

Vassoura de mato... uma para dentro de casa, outra para o terreiro. Aos sábados, minhas tias iam cortar vassoura e pegar “barro branco”, hoje sei que é o caulim, deixavam secar, formavam bolas e guardavam.

Aos sábados dissolviam uma bola em água, passavam no chão e no fogão. Ficava tudo muito branquinho.

As vassouras eram feitas de galhos de uma erva conhecida pelo nome de "vassoura" mesmo. Amarravam firme, muitos galhos em volta do cabo, e ela estava pronta e cheirosa.

Na cozinha, o fogão era o rei. No centro dela - enorme. Por dentro passavam serpentinas que forneciam água quente. O clima lá é muito frio o ano todo. As panelas, de ferro que minhas tias levavam para as minas, aos sábados e areavam até que parecessem espelhos. Enxugavam e orgulhosas as colocavam nas prateleiras,  ou “parteleiras” como elas diziam, cada uma com o seu “pano de prateleira"... marcadinhos, (era como chamavam o ponto-de-cruz),  com bróia nas extremidades, um tipo de amarrado  com parte do tecido desfiado, que elas ainda achavam tempo para fazer - e à luz de lamparina de querozene!
Sabão – feito em casa. A partir de cinzas, gordura de porco e soda cáustica. Era um sabão preto, que ao passar  num arranhão da pele ardia muito. Passavam ele na roupa, no primeiro momento ficava preto, mas como limpava! As minhas tias lavavam roupa na beira do rio. Punham para "quarar" nas pedras e iam jogando água – não podia deixar queimar. Ficavam lindas. Ainda hoje, tiro encardido de roupa colocando no sol. Fica clarinha. Roupa passada a ferro de carvão. Enorme e pesado.


Os meus eram todos lavradores. “Sem terra” como se diz agora.
Trabalhavam no sistema de “terça”.
O dono da fazenda cedia um pedaço de terra. Ali podiam plantar, criar animais, não havia restrição. Mas com exceção da horta, mineiro adora horta, entregavam 2/3 e ficavam com um. Ninguém passava fome. Quanta fartura. Também muito trabalho. Meus primos a partir dos 8 anos já iam para o cafezal.
Não importava o sexo. Levantavam-se com o cantar do galo, e tomavam o café mineiro... Café com angu de milho, inhame... pegavam suas enxadas e subiam para os cafezais. (Aqui cabe um parêntese: em Minas não existe sem terras, pois a cultura de café é difícil para ser mecanizada.  Ele dá nas encostas das serras – então é enxada mesmo.)


Bem, iam todos para o cafezal. Ficavam em casa minha avó e uma das tias. Para fazer o almoço. Fogão à lenha, panela de ferro. O primeiro a ir para o fogo era o angu. Ficava quietinho, cozendo na última trempe, e recebendo uma mexidinha de vez em quando. Mineiro não come sem angu. A raspa da panela, que delícia. Carne nunca faltava – de porco, não gostavam de “carne de boi”... Não comiam arroz – só aos domingos. O substituto era canjiquinha de milho branco. Com costelinha de porco, couve, feijão, chouriço, torresmo... Muita fartura. Arrumavam as panelas num tabuleiro e subiam as serras com eles na cabeça. Isto antes das 10 horas, para que o almoço chegasse cedo. Todo mundo esperando, morto de fome. Não levavam pratos, para não fazer peso. Nas grotas ,abundantes.  brota muita taioba, era só pegar uma folha grande lavar na água corrente e fazer o prato. Os copos eram do mesmo “material”. Aos domingos era uma festa... macarrão com galinha, arroz, feijão, e de sobremesa queijo com doce de laranja, de mamão... tudo feito em casa.

Um dia conto mais!....





Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia, o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

(de Eduardo Alves da Costa)
atribuído a Brecht e Maiakovski
(colaboração Carlos Pinto)

                                                                                                
           
--------- PUBLICIDADE ---------
Maria Aparecida Fraga Ferreira
Outros links::
http://www.sitenarede.com/sosmicros

Criar Site! Crie você mesmo o seu site! Programa de afiliados que lhe paga R$8,00 mensais por cada indicado